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13 de out. de 2008

Exagerada



O crédito estourou, a vida virou
apagão de gás, luz sem sinais
e eu no meio gostoso do caos
brincando de ser gente meio animal

Faz amor sorridente
daqueles de amigo
bem quente no frio
cachorrinho no cio

Travesseiro de ombro
pernas de apoio
e um sapato velho
que me machuca o dedo médio

Chão sem beira
noite sem eira
e um copo de água
evaporou o álcool da cachaça

Virei abóbora sem fantasia
e Halloween em plena Bahia
com ar de graça saio de banda
ao som de batidas elétricas
ascendo o cigarro da energia

3 de out. de 2008

foco desfoco



Vou olhar para o céu
sem perceber o chão
sem sentir o empurrão
dos passantes apressados

Vou olhar para o alto
talvez tropece, me ferre
quanto mais se olha pra cima
mas se pisa na merda

Quem se importa,
a sorte é a saída
vá em frente com cara quebrada
e dor de barriga

Vou ouvir o som do meu radio
e não ligar para as buzinas
para a chuva fina
e o farol fechado

Eu espero, em pé e sentado
não dou o braço ao tempo
fico pendurado na janela
a espera pode ser a promessa

Ele vem, não sei bem
quando e como
olho o mar e peço a Yemanja
um sorriso de amor já

Enquanto isso, eu sigo
a olhar a cidade, sem foco
os bares, os onibus, os rostos
procurar na multidão sem graça
o destino que me aguarda

18 de jul. de 2008

não quero dizer nada com isso!



...e ele diz para ela de novo:
"A vida é assim, nada é completamente bom ou ruim!"
E ela responde cantarolando com seu sotaque britânico
(que sempre achou mais chique e bonito que o americano):
"Life is like that, nothing can be completely good or bad!"

Num olhar rápido para o fundo do olho
daquele lindo menino á sua frente,
ela nota que ele não sabe o que quer,
e que seu olhar humedece delicadamente
a cada piscada. Ele não quer chorar na frente dela.
Nunca chorou na frente de ninguém.
Só quando estiver sozinho ele deixará a lágrima livre para sair.
Com um suspiro profundo, uma esfregada de mão nos olhos,
e pronto, ele guarda o choro pra depois.
Afinal, logo logo ela sairá pela porta da frente.
Sem olhar pra trás com a mala nas costas.
A mala é tudo que ela tem na vida. Mesmo não querendo muito,
ela também não quer tão pouco. E por isso o deixaria.

"idade talvez!" Pensou ela em voz alta.
"O que disse?" Ele pergunta curioso. Estava acordando de seus
frequentes devaneios. Quase sempre ele perdia o olhar para o
horizonte mais próximo e ficava imóvel,
feito estátua olhando para o nada,
com um olhar de louco psicopata que sempre assustava muito ela.

"Nada, não disse nada"
Ele se revolta:
"Disse sim, pensou e disse alto, sem querer,
agora que já foi vai ter que falar"
"Então, eu já falei, se você não ouviu já foi, não era para ouvir"
Ele fica mudo diante de tal comentário grosseiro dela.
Não suportava mais a indiferença daquela menina
que, convenhamos, mal o conhece.

Sabia que essa não era a primeira Vida em que se encontraram.
Tinha algo pesado, antigo que rodeava os dois.
E era melhor resolver agora, nessa vida,
pra não voltar nas outras seguidas.
Mas por não gostar de mexer com misticismos e
ocultismos diversos, por não saber lidar com
isso direito, eles certamente
deixariam pra resolver aquele karma depois.

Ela olhava e queria que ele fosse outro.
Não fisicamente, nem a personalidade.
Amava tudo isso nele. Era a sua postura para com ela.
Ele não podia assumir e dar o que ela procurava.
Era um homem sem futuro.
E por mais que isso pudesse parecer triste e cruel,
não tinha como não pensar nisso.

O sexo era muito bom. Obrigado.
Nada além, nada rápido, nem calmo. Mar plácido. Lugar comum.
Muito tesão de certo. Uma briga e uma garrafa de vinho resolviam
qualquer problema.

De olhos fechados ele disse:
"Antes que você diga primeiro, eu já sei, não tem mais jeito."
Ele abre os olhos e continua:
"Realmente acabou. Sumiu. O amor evaporou.
O meu não muito, assim, ainda tinha esperança.
Mas infelizmente o seu amor se foi totalmente."

Pegando a mala e indo em direção a porta da frente, ela interrompe:
"Para de ser louco melodramático. Eu só vou viajar.
Passar um tempo fora.
Eu sei que tenho andado muito ocupada.
Sem tempo pra nada...
Me beija?"
Assustado ele grita:
"Não"
"Para, isso só piora as coisas"
Ela fala enquanto tenta convence-lo de beija-la.
Ele olha no celular e muda de semblante.
Fica de repente serio:
"Acabou nosso tempo. Nos encontramos daqui um mês?"
Andando cabisbaixa em direção a saída, ela olha para trás:
"Isso"
Ela ainda tem esperança.

30 de jun. de 2008

pare, simplesmente viva


Pare de pensar em tudo
Não falar em nada
E ter medo do diluvio
Pare de se esconder em baixo da mesa.
Na peneira da vida porreta
Passa o sal e sobra sempre poeira

O sol que arde os olhos não é aquele que cega?
Mas sem ele não sobrevivemos
Arrume um óculos escuros
E siga vivendo!

De que vale as preces
Se o mundo está tão enfermo?
Corra que o tempo te engole
Quando olhar para trás
Não te lembrarás
Se é humano, bicho
Ou um imaterial espírito

Não é mole
Se perder no estômago do tempo
Achar que tem o rei na barriga
Quando é só verme e comida

Não é fácil
Viver na busca de algo
Sem saber se gosta de preto
Ou prefere os tons claros

Pare e escute você mesmo
Não os sons estranhos
De uma barriga com fome
Nem os suspiros de quem
Se sente sozinho
Mas a sua voz interna
Projetada pela luz e sombra
Na parede da sua mente-caverna

29 de set. de 2007

dias de cão e o amigo homem


amigos
a coisa mais importante é ter amigos
tudo passa e se vai
amigo mesmo dura a vida inteira

nesses dias de cão
encontrei meu amigo homem
na missão de esquecer para continuar sempre
ao meu lado, na minha frente
um amigo de braço aberto

em tempos de adversidades
o homem correto sai forte
e supera tudo, pra depois
encontrar o sucesso
ouço a voz do eco
meu eu me avisou
me disse entre as linhas
do rabisco que é minha intuição
algo aqui não está certo
vai haver confusão

agora sobrou pra mim
saio arrebentada, correndo
atravesso os piores tempos
pra começar tudo de novo
na roda da vida
não serei eu o bobo

13 de set. de 2007

partes separadas

"o importante numa estória, o que é verdadeiro nela, não é a trama, os objetos ou os personagens, mas as relações entre tais elementos" G. Bateson

o olho que engole tudo
englobo em mim
as eras passadas
antepassados do mundo
o além se encontra obscuro

aqui e ali, agora
tudo é o novo
o nunca feito
e a imagem repetida
é a que fica gravada na mente
varias e varias vezes

sou espelho
reflito os gritos
agudos e felizes
em meu peito cabe o mundo
me jogo no diluvio

rios de águas manchadas
de imaginação borrada
a imagem interior
livre flutua aguçada
liberta-se das amarras

produtos
químicas
elétrica guilhotina
o outdoor grita
você é feia
eu sou bonita

bundas, seios
pernas e venenos
injeções milagrosas
sorrisos falsos
mutuo desrespeito

me mudo
me consumo em ideias
sumo com os conceitos
pré concebidos
de mim mesmo

pressupostos
pensamentos ortodóxicos
cartesianos
inumanos
ultrapassados
insanos

as partes separadas não existem
são fatos isolados
e se acabam
o tempo é gasto
gasta a parede fina entre
o real e o imaginado

ação na imagem
gerar a curiosidade
as vontades que nos movem
os corpos que nos habitam
sou absorvido
pelos poros da viva cidade

7 de set. de 2007

where did hope go?

Ilustração:
http://www.fotolog.com/anacarolana

MAIS UM GOLE DE ESPERANÇA

A esperança nunca morre
mas fica um tanto bêbada
mais um trago de maus tratos
mais um dia na boêmia

revoltada joga sujo
limpo a área com um pano imundo

e o vidro não desembaça
perdi o sinal no túnel

aonde foi a esperança?
soluçando sumiu
nos olhos, nas bocas
nas entranhas

não procuro mais
se se for
que então vá
pra voltar bela e livre

4 de jun. de 2007

cine imaginário

Cinema consumista
consome todas as salas
pipocas e revistas

todos os canais,
outdoores, ônibus
todos falam sua língua

cinema mecânico
sem poesia
cine dinheiro
cine alegria

sem emoção
se fabrica
sem coração
se cria

fique atento
ao que teus olhos
sem discernimento
captam na sala escura

pois já está pago
nem vais perceber
o quanto somos comandados
para pensar o já ditado

cena a cena
a força da imagem
como flecha certeira
atingindo o imaginário

o que é bom aparece
o que aparece é bom
rebanhos de consumidores
é isso que restou?

acredito que não
arte pela arte
na rua na vida
na tela magica

arte do movimento
arte sofrimento
para aqueles que caminham
rumo ao experimento

o caminho do sonho
até a fotografia
luzes que revelam
presença divina

sétima arte
liberta-se da prateleira
da receita do bolo da confeitaria
a mesma, igual a todo dia

imagem movimento
imagem tempo
se cria e inspira
respira fotogramas
ninguém sai ileso

2 de jun. de 2007

Desilusão

De novo o ciclo se repete
Tentei fazer diferente
Mas no destino não se mete
A paixão passa
E o amor só pra mim aparece

Todos me escapam
Olha ai eu de novo
Sozinha no buraco

Enquanto nele permaneço
Você feliz ao relento
Das noites de festa

Não me esqueço
Que você ajudou a cavar
A cova rasa do nosso relacionamento

Cai de joelhos, bem feito
Ainda não aprendi
A escapar da maldita dor no peito

É que dessa vez eu esperava
Ser diferente da passada
De todas as desilusões e furadas

A esperança não passa de pequenas lembranças
Vou seguir a vida, sem ele, sem mim
Afinal espero o próximo vir

O que resta é o agora
Seu cheiro passou
Seu beijo sumiu
Nada foi o que sobrou
Sairei ilesa ao teu frio

31 de mai. de 2007

aqui jaz uma formiga

Matei uma formiga
Tão pequenina
Indefesa qual criança menina
Passou no meu caminho e
Sem dó a esmaguei

Sou formiga no caminho de alguém?
Somos pontos no universo?
Grãos de areia, minúsculas estrelas e
Não fazemos a menor diferença?

Depende do ponto de vista
Não se esqueça do "efeito borboleta"
E o efeito formiga?
E eu que matei uma ali em cima?

Na página apenas a sua marca
Da porção quase invisível de seu sangue e carne
Esmagados e bem ali grudados

E eu que nem sei
Se sou formiga esmagada
Ou borboleta presa na jaula?

Olho os destroços e prometo
Não como mais carne
Não mato mais animais

E a formiga ali em cima
Abandonada, largada, o que se faz?
Já se foi, morreu.
Numa página da net
A pequenina jaz!

29 de mai. de 2007

palavra-amor

amor explosão
sem saída
contra mão do eu
na via da vida

pulsar de sangue
na veia mais fina
mais sentimental

na medida certa
na perfeita dose
que te domina

nem percebes
já és escravo
deste fogo incansável
que te arrepia a espinha